Algumas considerações sobre a definição de Ecomuseu

 O termo vernáculo MUSEU, deriva do latim – muséum e do grego mouseion, e referente ao templo das Musas, lugar onde se exercitavam e procediam a estudos e memórias de caráter acadêmico. Resumidamente, espaço de preservação e difusão cultural.

  Vejamos, imagens do engenho tipo cangalha, ou de centro ou molhe, encontrado no Ecomuseu.

Engenho de Farinha de Mandioca

Engenho de Farinha de Mandioca

Engenho de Farinha de Mandioca

Engenho de Farinha de Mandioca

Na atualidade MUSEUS são instituições nas quais estão colecionados, conservados e expostos, objetos, documentos e peças diversas que intrinsecamente possuem motivações culturais, históricas, antropológicas, científicas, naturais, curiosidades humanas. O homem é um ser inatamente curioso em perquirir suas raízes antepassadas.

Assim, um museu tem por escopo mostrar, oferecer ao interesse público em geral, informações sobre realidades circunstanciais, criação cultural, modos de vida de gerações passadas, conteúdos naturais e um infinito número de respostas à curiosidade humana. É um centro de estudos, investigação e pesquisas atuando como pólo de atração de correntes turísticas culturais (fenômeno universal massivo deste momento, de final do século XX e início do XXI).

Além dos “espaços especificamente criados para museus”, é de registrar que certos monumentos arquitetônicos, obras civis de estruturas singulares e arrojadas, igrejas e peças sacras, edifícios, viadutos, aquedutos, escavações de singular interesse, grutas e acidentes marcantes, construções da natureza, etc. recebem, também, a classificação, em muitos casos, de museus.

Há, ainda, áreas consideradas museológicas com a presença de recursos naturais nos reinos, vegetal, animal e mineral, que são alvo de uma política de preservação estudos, pesquisas e explicações empíricas do mundo em que vivemos.

Encontramos bibliotecas, discotecas, filmacotecas, pinacotecas, jardins botânicos e zoológicos, numismática, filatelia, malacologia, astrologia, etc., etc., que, aos poucos, as ciências as enquadram na área museológica.

Verdadeiros museus ecossistêmicos são determinadas vilas, cidades ou povoações primitivas cujo conjunto de traçado urbano singular que registram épocas ou etapas evolutivas das organizações societárias dos homens urbanos. Entretanto, poder-se-á aplicar, também, tal raciocínio para conjuntos rurais.

A existência de museus tecnicamente estruturados, com tecnologias com efeitos especiais e de grandes processos de comunicação – modernamente estruturas virtuais-, é um fenômeno recente. Segundo registros, têm início ao raiar do século XVII em Portugal e na Espanha e se difundem rapidamente pelo mundo em meados do século XIX.

Em Florianópolis o primeiro museu surgiu durante o Império no Reinado de Dom Pedro II, que através de Decreto instituiu o MUSEU PROVINCIAL DE DESTERRO, em 1868, e esteve montado em prédio próprio na Praça do Recreio, hoje Pereira e Oliveira. Foi ele, no início do século XX 1906, desmontado para, no belo prédio especialmente construído para o Museu Provincial, a instalação do Tribunal de Justiça criado no advento da República. O acervo deste museu, em parte, foi parar no Colégio dos Jesuítas, Colégio Catarinense, onde permanece até hoje.

Esse lendário e histórico edifício foi demolido em 1972 para abrigar uma empresa telefônica estatal a Telecomunicações de Santa Catarina S/A. Hoje a Brasil Telecom AS.

Mais recentemente surgem as tentativas cientificas de classificar os museus por temáticas tais como Museu Histórico, Etnológico, Etnográfico, Antropológico, Arqueológico, Ciências Naturais, Sociológicos, Regionais, de Arte ou Belas Artes, Artesanato, etc., etc., etc.. A cada instante são propostas novas linhas como um processo natural e amparado em sólidos argumentos e objetivos.

No caminhar da história dos museus, a mais recente classificação de ECOMUSEU nasce cerca de quarenta anos atrás, em Portugal.

Por ser uma tipologia nova não tem ainda uma conceituação consolidada e, por isso, seu emprego gera controvérsias e resistências. Há inclusive colocações não admitindo o seu uso.

Tudo leva a crer que como vivemos um momento universal com respeito aos estudos da ecologia e as ações de preservação e defesa de ecossistemas, o designativo ecomuseu possa ser aplicado para uma larga faixa de situações concretas.

Seguem outros ângulos do Ecomuseu.

Ecomuseu do Ribeirão da Ilha
Ecomuseu do Ribeirão da Ilha
Ecomuseu do Ribeirão da Ilha

Ecomuseu do Ribeirão da Ilha

Tear

Nos modernos estudos a ecologia toma força especialmente em relação aos sistemas naturais. Mas, não há como deixar de considerar os ecossistemas culturais, os modos de viver, sentir, simbolizar e fazer das sociedades, isto é seu mundo cultural com destaque para certas comunidades cuja estrutura endógena, tanto material como imaterial, mereça uma atenção preservativa, documental e memorial.

De outro lado, o verbete ecomuseu é tão recente que nos léxicos ele está ausente, e, nem mesmo é referido qualquer ecomuseu em enciclopédias universais que se preocupam, nas mais das vezes, com idéias, realidades e conceitos amplos sobre museus.

Trata-se, por isso, a expressão ecomuseu, de um neologismo relativo à área museológica e que tem por função epistemológica a identificar um acervo eco-cultural que tenha relações com ecossistemas.

Há, nesse conceito, implícito propósito de preservação e colocação de amostras para comunicação, instrução, memória, lazer, pesquisa e atração turística de específicos acervos ecológicos.

Mas, qual a origem da aplicação desse designativo de tipologia museológica?

Entendemos, salvo melhor caminho e em função de nossos limitados estudos, que transcrevendo um resumo inserido no folder ilustrativo do primeiro ecomuseu do mundo, o ECOMUSEU DO SEIXAL, (Seixal – muitos seixos no desaguar do riacho Coina para o Tejo – é um distrito de Setúbal, cerca de oito quilômetros de Lisboa, Portugal) poder-se-á ter uma idéia sobre o tema:

Em 1403, Nuno Álvares Pereira, que era proprietário de quase todos os terrenos banhados pelo braço do rio Tejo que entra no Seixal, mandou construir o Moinho de Maré de Corroios, o primeiro que se ergueu naquela área.

Em 1404, muito pouco tempo depois da construção do moinho, Nunes Álvares Pereira doa ao Convento do Carmo todos os seus bens que tem na zona do Seixal, incluindo o moinho de maré. Os frades Carmelitas, a partir do século XV, promoveram a construção de novos moinhos de maré nos domínios que possuíam no território do Seixal: o Moinho da Raposa, o Moinho do Galvão, o Moinho do Capitão, o Moinho da Passagem e o Moinho da Torre, defronte do Seixal. Na margem esquerda do rio Coina, da Azinheira até à Vila de Coina, ergueram-se outros moinhos de Maré, igualmente a partir do século XV; o Moinho Velho dos Paulistas, o Moinho da Palmeira, o Moinho do Cabo da Linha e o Moinho do Zeimoto.

Todos estes moinhos de maré chegaram até a atualidade, mas só o Moinho dos Corroios se manteve em funcionamento, garantido pelo moleiro, que conhece as técnicas do sistema de moagem tradicional.

Em 2 de novembro de 1979, a Câmara Municipal do Seixal deliberou adquirir o Moinho de Corroios, quer para salvaguardar o monumento industrial, como ainda para o tornar acessível à comunidade com o objetivo de conhecer um dos sistemas de moagem tradicional.

Em 6 de novembro de 1986, após as obras de recuperação levadas a cabo pela Câmara Municipal o Seixal, o Moinho de Corroios é transformado em Núcleo do Patrimônio Industrial do ECOMUSEU (destaque nosso) Municipal do Seixal, conservando-o em funcionamento e ao mesmo tempo, privilegiando os objetivos didáticos”.

Entendemos então que os sistemas de produção da Casa Rural Açoriana do Ribeirão da Ilha, e em especial o singular Engenho de Farinha de Mandioca, se tratava de um monumento tradicional e em funcionamento, lançamos para ele, em similitude com Seixal, a denominação de ECOMUSEU, quando até então era designado por museu etnológico. Fui uma nova denominação, e a primeira do Brasil.

Partindo daí, vários outros museus passaram também ser designados de Ecomuseu, e em alguns deles aplicando o termo e a classificação seguindo um outro modelo, quando em 1989 é organizado o Ecomuseu de Piemonte, na Itália, uma comunidade aos pés da região norte e montanhosa nos Alpes daquele país, e buscando ter como foco a preservação de uma vila.

Fotos do Ecomuseu do seixal

Fotos do Ecomuseu do seixal

Então, na realidade, são duas as vertentes para se ter iniciado essa nova tipologia de museu, uma que se refira a um ecossistema produtivo e industrial e um outro identificando a museografia de uma comunidade com suas estruturas singulares, históricas e, em alguns casos, identificadora de novas formas culturais.

Retomando o que se refira ao Ecomuseu do Ribeirão da Ilha, além dele estar preservando um determinado e singular exemplo de tecnologia tradicional no fabrico da farinha de mandioca busca ir ao encontro de um outro, qual seja o de preservar um ecossistema de vida e de trabalho e viver. Formas de fazer, sentir, pensar e simbolizar, onde o colonizador açoriano organizou os seus espaços vivenciais e laborais ajustando-os às circunstâncias da natureza.Como sua tecnologia, ou recursos técnicos construtivos eram insipientes e primários, suas edificações se ajustaram as características ambientais e não recorrendo aos modernos processos de para transformar as formas naturais ajustando-as ao projeto.

Ecomuseu do seixal

Ecomuseu do seixal

Anúncios

O Museu

Este Museu objetiva mostrar, restaurada, uma propriedade rural, casa residencial, terreno com chácara e quintal, unidade de produção, o Engenho de Farinha de Mandioca, plantações e outros – conforme a “desenhou” o colonizador açoriano , chegado à Ilha entre 1748 e 1756 (cerca de 6.000 pessoas) com o objetivo de tornar as terras produtivas e assegurar as posses portuguesas no Brasil Meridional.

Desses açorianos, um grupo de 60 famílias veio desenvolver a póvoa do Ribeirão da Ilha, a qual existia desde 1514, data em que o primeiro grupo de europeus se radicou nela. Naquela ocasião Juan Dias de Solis, fundador de Buenos Aires, aqui deixara 21 de seus marujos que se mesclaram com índios Carijó. Os Carijó denominavam a Ilha de Meiembipe ou Yjurerê Mirim.

Aqueles marujos, provindos da Espanha, receberam um reforço organizacional em 1526 quando chega a Ilha Sebastian Cabotto, que sendo veneziano estava a serviço da Corte Espanhola, e constrói no local, hoje Canto do Rio Ribeirão, casas, capela, estaleiro e outros serviços.

Organizado, o povoado que hoje é o próspero Distrito do Ribeirão da Ilha, decidiu batizar a Ilha com o nome de Santa Catarina em referência a Virgem Mártir de Alexandria.

Visitar, em nossos dias, a Freguesia de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão da Ilha é conhecer uma vila açoriana com certeza, pois de todas aquelas que o colonizador açoriano teria estruturado é esta a que mais preserva as características de suas origens culturais nesta “ILHA DA MAGIA”, e base da formação do Estado de Santa Catarina, o Estado “Barriga Verde”. Por estar o Museu, montado dentro de um ecossistema sócio-econômico-cultural no local de nascimento, veio a denominar-se de ECOMUSEU DO RIBEIRÃO DA ILHA.